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Livro Das Terras Bárbaras

Das terras bárbaras

Narrado por duas línguas ferinas – um jesuíta do século 17 e um diplomata do século 21 – este romance histórico nos põe diante do espelho e surpreende, faz rir e pensar com graça e ironia sobre nosso destino.

Os personagens deste livro movem-se na barbárie das florestas, no Brasil de quatro séculos atrás, um mundo assombroso e distante – em que as pessoas cuspiam fogo, andavam nuas, fugiam da verdade para se defender, escravizavam índios, traficavam negros, escondiam seus amores, comiam uns aos outros. Um romance histórico em que o universo seiscentista se entrelaça com os dias atuais, traçando o retrato de um país inacreditável. Relatos selvagens de terras em brasas, tão longe tão perto de nós.

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Direto na orelha

por Roberto Pompeu de Toledo

Dá para abandonar um livro que começa com uma sorrateira mordida na orelha? Resposta: não dá. Ainda mais quando o gritinho da dona da orelha é estrategicamente abafado pelo pio das gaivotas, de modo a passar despercebido pelo marido. Das terras bárbaras, de Ricardo da Costa Aguiar, é um livro cuja primeira singularidade é desdobrar-se em dois — um ambientado na era contemporânea, protagonizado por um diplomata, o outro no século XVII paulista, protagonizado por um padre jesuíta. Diplomata e padre são ambos ligeiramente doidivanas (talvez nem tão ligeiramente assim) e empenham-se, um e outro, em peripécias ligeiramente picarescas (ou não tão ligeiramente assim). Os capítulos se alternam entre um período (e um protagonista) e outro. A leitura é fluida; avança-se ansioso por saber que diabos de peripécias ainda aguardam tanto o padre quanto o diplomata. A segunda singularidade do livro é a graça, a erudição e a verossimilhança com que o autor nos traz de volta o ambiente do século XVII na parte sul do Brasil. Não há dúvida de que fez bem a lição de casa, para nos apresentar da forma como apresenta os ares, os sons, as cores, a natureza e a arquitetura dos lugares, bem como a linguagem, as crenças, os medos, a sensualidade e a bestialidade das pessoas do período. “Sempre li muito sobre os séculos XVI e XVIII”, disse-me Ricardo, “o primeiro por causa das descobertas, da Contrarreforma, da colonização e das primeiras vilas, o segundo pelo Iluminismo, as revoluções, a emergência dos Estados-nação em toda a sua força.

O século XVII, no entanto, eu desprezava; era uma espécie de hiato sem colorido.” A curiosidade pelas origens de São Paulo mudou o foco de suas atenções. Voltou-se para os livros e documentos sobre as bandeiras, os jesuítas, a geopolítica e os conflitos da vasta região que, descendo das Minas Gerais até os limites ambíguos das terras dominadas pelos castelhanos, ao sul, e estendendo-se ao oeste até os grandes rios da bacia do Prata, Antonio Candido chamou de “Paulistânia”, pela influência da cultura paulista. Enquanto o diplomata, no século XXI, se envolve em tão variadas confusões quanto a busca enganosa de notícia dos antepassados e um caso de falsificação de passaportes, sórdidas intrigas no ambiente de trabalho e a miragem de fabulosa herança (salpicadas todas de ternos enamora mentos ou fatais atrações pelas mulheres), o padre de quatro séculos antes vê-se em meio a uma guerra de índios um pouco como o jovem Fabrice del Dongo, de Cartuxa de Parma, de Stendhal, que se misturou às tropelias da batalha de Waterloo sem saber que aquilo era a batalha de Waterloo. A guerra em questão era o ataque bandeirante contra a Missão de Jesus Maria, dos jesuítas espanhóis, objeto de um dos mais inspirados episódios do livro; nele se dá um dos prodígios da boa ficção, que é apresentar o passado tão junto do leitor que o reveste de maior “realidade” do que os “realistas” livros de história.

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Sobre o autor

Economista e diplomata, Ricardo da Costa Aguiar nasceu em São Paulo. Estudou Direito na USP, formou-se pela Escola de Administração de Empresas da FGV e pelo Instituto Rio Branco (primeiro colocado, com louvor), com pós-graduação em Economia Internacional pelo Institut d’Études Politiques de Paris (Sciences Po). Participou da negociação da dívida externa nos anos 1990, foi cônsul na África do Sul e no Japão, conselheiro sênior do Banco Mundial e representante do Brasil na ONU. Autor de O Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, além de artigos nos jornais O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense. É executivo do mercado financeiro. Das terras bárbaras é seu romance de estreia.

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